É estranho e ao mesmo
tempo perturbador (ao menos pra mim) pensar em como a maioria das pessoas
possuem uma visão tão restrita e manipulada sobre as coisas e acontecimentos ao
seu redor, e pior, pensar em que nível pode chegar o grau de alienação de um indivíduo
quando se propõe a pensar sobre determinadas situações, por ele vividas.
Alienação: essa
palavra que não aguento mais pronunciar e nem tenho mais por onde criticar. É
até ridículo, pois discorrer tanto sobre isso faz com que, quem vê de fora, pense
que sou uma pessoa totalmente desprovida dessa “maldição”, e isso seria
improvável, pois não se foge dela, é cultural. Mas é possível que se entenda
seu processo e drible o controle por ela imposto, ponderar o que pensa e, de
fato, aprender pensar (sozinho).
Alienação, segundo o
dicionário Aurélio, significa: s.f. [1] Ação de alienar: alienação de uma
propriedade. [2] Perda da razão, loucura: alienação mental. [3] Estado da
pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete
cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de
seus verdadeiros problemas. [4] Alienação a título gratuito, doação. Aqui, me
apegarei a definição 3.
“Estado
da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete
cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de
seus verdadeiros problemas.” Exato. Esse é o ponto, pois a alienação parte
de um processo educacional – educacional no sentido de formação do pensamento
(no nosso caso, o pensamento acrítico) – que estará ligado aos fatores de
convivência sociais permeados por toda nossa vida, pois o ser humano é um ser
sociável. É um ser que vive em função do grupo, sendo isso notável e justo,
pois esse fator tem garantido nossa sobrevivência desde os primeiros hominídeos,
e mais, tem evoluído com o Homem e suas relações, paralela a sua evolução
natural. Mas essa alienação nos faz enxergar essas relações de forma isolada,
tirando o foco dos “verdadeiros problemas” que estão por trás de cada
acontecimento decorrentes ao meio em que vivemos.
Nesse sentido podemos
tentar entender como as pessoas desenvolvem seu senso crítico, em relação a
qualquer assunto, de modo a ponderá-lo, entendê-lo, perceber suas relações com
outros assuntos, e mais, contextualiza-los com seu tempo histórico. Acredite,
esse é um papel destinado à educação formal, mas que na prática acaba sendo
muito falho dentro do processo de aprendizagem, que acaba sendo influenciado
por diferentes fatores como convivência familiar e a mídia, por exemplo, (talvez
não de uma forma totalmente proposital, mas efetiva). Como diria um antigo
professor meu: ”É muito difícil competir
com a Globo”. E de fato, é.
Logo, percebemos que
o pensamento crítico das pessoas é um pensamento restrito, que pondera
situações de acordo com o senso comum ou um instinto de sobrevivência (natural
e social), criando uma forma de contextualização rasa, no qual a pessoa analisa
cada fato utilizando uma ou no máximo duas vertentes de comparação (natural
e/ou social), e o pior é que normalmente essas vertentes são assimiladas pelo
aprendizado, principalmente o do dia-a-dia – que é mais usual e limitado – e cabe
melhor às situações vividas. Essa baixa gama de vertentes críticas, sobre os
acontecimentos e situações vividas ou presenciadas, advém justamente do processo
de alienação do pensamento, moldada pela nossa construção social que, também,
vem degradando a educação e potencializando a lavagem cerebral imposta pela
mídia. Esse processo tem se tornado hereditário e, em minha opinião,
preocupante.
Podemos parar para
tentar entender como funciona o pensamento crítico de uma pessoa presa dentro do
processo alienatório, basta pensar em uma situação que exija certo tipo de
reflexão e analisar os comentários feitos em relação a esse assunto. Por
exemplo, quando um policial mata um bandido é comum, à maioria das pessoas,
vangloriarem o policial, movidas por uma questão moral e social, aprendida ao
longo de suas vidas, de que roubar é errado e que se alguém cometer esta
contravenção deve ser punido. Nesta situação o bandido foi punido com a morte,
mas moralmente (para o alienado) isso não faz diferença (pois bandido é um caso
perdido), e pelo contrário, é uma garantia de que aquele meliante não cometerá
mais aquela ou qualquer outro tipo de contravenção que pode quebrar o bom
convívio social. O policial é o heroi e um “pseudo-conforto” é estabelecido,
afinal, “um a menos”. Esse pensamento crítico-alienado reconforta a maioria das
pessoas, tendo sido estruturado pautando sua construção no senso comum e no instinto
de sobrevivência pessoal (natural e social). “O bandido morreu” (“ninguém”
gosta de bandidos – senso comum), se este está morto “Ele não pode me roubar,
também” (não me afeta, estou seguro – instinto de sobrevivência natural e
social). Assim, se constrói uma ideia de que todo bandido deve pagar com a vida
e de que todo policial (ou civil) que o faz é heroi (fato isolado servindo para
generalizar os outros). Essa talvez seja a vertente de pensamento crítico mais
comum (mais senso comum) e que está estabelecida na maioria das pessoas. O que
não é verdade se for pensada analisando o lado dos “bandidos” que ainda não
foram pegos, por exemplo.
Agora, vamos manter o
foco ainda na mesma ideia (policia x ladrão) e considerar possíveis vertentes
de um pensamento que poderia abranger uma pouco mais da situação e não
ponderá-la de uma forma isolada, como o senso comum faz. Esse pensamento
poderia verter dentro de uma possível análise sobre a vida do “ladrão” e os
fatores e influências socioculturais que o levaram a cometer àquele delito.
Talvez, buscar entender o contexto em que ele cresceu e que estrutura familiar
possuía, como este indivíduo é visto e classificado pela sociedade e qual sua
margem de culpa (culpa social) por ser quem é. Pensar de quem realmente é a
culpa por ele estar naquela situação, pois sim, como produtos finais, tanto ele
como o policial são vítimas do sistema e fantoches da articulação do poder
político. Ainda nesse sentido não se deve relegar a culpa aos pais de infrator,
alegando falta de educação, se também não se conhece suas histórias,
influências e contexto, pois de fato o problema está lá trás, e duas ou três
gerações ainda não serão suficientes para explicitar tal fato.
No caso do ladrão
(que também é movido pelo senso comum e alienado) seu problema tem base no Sistema
e suas desigualdades que também faz com que ele pense as coisas do modo mais
fácil (ao menos pra ele) e isso, você e eu, (que não somos “bandidos”) também,
fazemos, a diferença entre nós e ele é que estamos em famílias, influências e
contextos diferentes, de modo geral. No caso do policial (que também é movido
pelo senso comum e alienado, generalizando), ele é uma ferramenta do Estado que
é pago para receber ordens e punir os indivíduos que quebram o bom convívio
social. [Pensemos que se para uma sociedade capitalista o certo é comprar,
logo, roubar não se encaixa em seus padrões aceitáveis], se não se encaixa nos
padrões quebra a harmonia, e alguém deve ficar responsável para que isso não
aconteça, e o Estado incumbiu à polícia, isso.
Se tanto o ladrão
quanto o policial, enquanto participantes ativos de nossa sociedade são vítimas
do verdadeiro vilão que é o Sistema e sua estrutura desigual, por que um recebe
pedras e o outro, palmas? Estamos apedrejando uma pessoa por não ter culpa do
que se tornou e aplaudindo outra por ter que fazer o trabalho sujo de
eliminá-la. Pois a responsabilidade não deveria ser da policia em escolher
(moralmente) a punição de um bandido, e sim, do Estado em estruturar a
sociedade de modo a não cria-los, como efeito colateral de um modo de produção
egoísta. Pensar que um pode ter, mesmo que outro não tenha, é egoísmo.
Transcender a essa
lógica (de pensar além do fato isolado) é pensar de uma forma mais ampla, e
entender que quando um ladrão morre o problema do roubo não morre com ele. É
como assoprar uma vela e esperar que todas as outras se apaguem de uma só vez.
É degradante (é andar pra trás) pensar que quando um ladrão (uma pessoa) morre
devemos ficar felizes, pois ali está um ser cuja história não conhecemos, e um
incrível potencial desperdiçado para realizar outras coisas que seriam mais
benéficas para o “nós” do que para o “ele”. É uma “pseudo-felicidade” que a
própria alienação nos propicia, pois a sociedade em que vivemos nos criou com
medo de perdermos coisas (que podemos substituir), mas não nos criou com medo
de perdermos nossos semelhantes, principalmente se eles são os causadores do
primeiro medo.
Nas palavras do internauta João Pedro (2014) discorrendo sobre um
jovem negro espancado e mutilado por “pseudo-justiceiros”, por suspostamente
estar cometendo pequenos furtos na região do Aterro do Flamengo: Se esse jovem
não estava na Pedra do Sal de hoje ouvindo a alta poesia da música negra,
tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre seu trabalho de mestrado
não é porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma
natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não
existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto
capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso,
não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos
fascistas.
Nossos pensamentos e decisões, nossas palavras e atitudes são
frutos de uma vivência capitalista que nos ínsita a ter amor por objetos e
apatia à humanos. Pensamos que um carro vale mais que uma vida, porque dentro
de nossa sociedade baseada na troca, realmente trocamos vidas por carros. É
esse pensamento mesquinho que nos enche a boca para dizer que quem leva nosso
carro, praticamente levou nossa vida e em troca queremos outra. É essa
alienação que nos controla, é o pensamento que diz que você só é bom porque
trabalha. Que só percebe o roubo do ladrão armado, mas nem desconfia da armação
do patrão que rouba um pouco da sua vida todos os dias, te dando um pouco em
troca de muito. Quem rouba quem? Quem vive pelo que? Ainda acreditamos que
pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Não quero com esse texto transmitir uma ideia de que defendo o
banditismo, pelo contrário. Apenas quero tentar mostrar como o problema vai
além do que se vê – de quem realmente é a culpa – e tentar ao menos criar uma
faísca de ideia nas cabeças pensantes que leram essas linhas até aqui. Os
fatores psicológicos que levam algumas pessoas a andarem fora lei são
individuais e nem sempre escolhidos conscientemente. Lei é uma forma de
controle que carrega uma ideia rasa de justiça, porém, sabemos para quem são
feitas as leis e a justiça, e também sabemos quem às deve cumprir e obedecer. O
verdadeiro crime está no alto escalação e imune a “ralé”, sai ileso alvejando
ainda mais seu colarinho branco.
Busque o pensamento além do alcance, reconstrua o que você
(supostamente) aprendeu na escola, deixe de lado o senso comum e mostre um
poder de assimilação maior que o da maioria, só assim criaremos mentes
realmente pensantes, que trarão ideias e soluções para construirmos uma
sociedade melhor. Precisamos pensar de quem realmente é a culpa e parar de
apoiar justiça com as próprias mãos e aplaudir trabalho sujo. Cada ser humano
merece um número ilimitado de chances, apenas devemos criar as possibilidades
para que ele só precise de uma. Ninguém é menos que ninguém, e os frutos de
nossos pensamentos, comentários e críticas colheremos no futuro. E o Futuro é
uma palavra de 6 letras e infinitas possibilidades. Isso deve mudar! Abra seus
olhos, sua mente e seus livros, e de novo (pense): De quem realmente é a culpa?
Lembre-se: não se justifica um crime cometendo outro. Nada substitui uma vida.
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