segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Alienação: Maquina de fazer vilão.

É estranho e ao mesmo tempo perturbador (ao menos pra mim) pensar em como a maioria das pessoas possuem uma visão tão restrita e manipulada sobre as coisas e acontecimentos ao seu redor, e pior, pensar em que nível pode chegar o grau de alienação de um indivíduo quando se propõe a pensar sobre determinadas situações, por ele vividas.
Alienação: essa palavra que não aguento mais pronunciar e nem tenho mais por onde criticar. É até ridículo, pois discorrer tanto sobre isso faz com que, quem vê de fora, pense que sou uma pessoa totalmente desprovida dessa “maldição”, e isso seria improvável, pois não se foge dela, é cultural. Mas é possível que se entenda seu processo e drible o controle por ela imposto, ponderar o que pensa e, de fato, aprender pensar (sozinho).
Alienação, segundo o dicionário Aurélio, significa: s.f. [1] Ação de alienar: alienação de uma propriedade. [2] Perda da razão, loucura: alienação mental. [3] Estado da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas. [4] Alienação a título gratuito, doação. Aqui, me apegarei a definição 3.
 “Estado da pessoa que, tendo sido educada em condições sociais determinadas, se submete cegamente aos valores e instituições dadas, perdendo assim a consciência de seus verdadeiros problemas.” Exato. Esse é o ponto, pois a alienação parte de um processo educacional – educacional no sentido de formação do pensamento (no nosso caso, o pensamento acrítico) – que estará ligado aos fatores de convivência sociais permeados por toda nossa vida, pois o ser humano é um ser sociável. É um ser que vive em função do grupo, sendo isso notável e justo, pois esse fator tem garantido nossa sobrevivência desde os primeiros hominídeos, e mais, tem evoluído com o Homem e suas relações, paralela a sua evolução natural. Mas essa alienação nos faz enxergar essas relações de forma isolada, tirando o foco dos “verdadeiros problemas” que estão por trás de cada acontecimento decorrentes ao meio em que vivemos.
Nesse sentido podemos tentar entender como as pessoas desenvolvem seu senso crítico, em relação a qualquer assunto, de modo a ponderá-lo, entendê-lo, perceber suas relações com outros assuntos, e mais, contextualiza-los com seu tempo histórico. Acredite, esse é um papel destinado à educação formal, mas que na prática acaba sendo muito falho dentro do processo de aprendizagem, que acaba sendo influenciado por diferentes fatores como convivência familiar e a mídia, por exemplo, (talvez não de uma forma totalmente proposital, mas efetiva). Como diria um antigo professor meu: ”É muito difícil competir com a Globo”. E de fato, é.
Logo, percebemos que o pensamento crítico das pessoas é um pensamento restrito, que pondera situações de acordo com o senso comum ou um instinto de sobrevivência (natural e social), criando uma forma de contextualização rasa, no qual a pessoa analisa cada fato utilizando uma ou no máximo duas vertentes de comparação (natural e/ou social), e o pior é que normalmente essas vertentes são assimiladas pelo aprendizado, principalmente o do dia-a-dia – que é mais usual e limitado – e cabe melhor às situações vividas. Essa baixa gama de vertentes críticas, sobre os acontecimentos e situações vividas ou presenciadas, advém justamente do processo de alienação do pensamento, moldada pela nossa construção social que, também, vem degradando a educação e potencializando a lavagem cerebral imposta pela mídia. Esse processo tem se tornado hereditário e, em minha opinião, preocupante.
Podemos parar para tentar entender como funciona o pensamento crítico de uma pessoa presa dentro do processo alienatório, basta pensar em uma situação que exija certo tipo de reflexão e analisar os comentários feitos em relação a esse assunto. Por exemplo, quando um policial mata um bandido é comum, à maioria das pessoas, vangloriarem o policial, movidas por uma questão moral e social, aprendida ao longo de suas vidas, de que roubar é errado e que se alguém cometer esta contravenção deve ser punido. Nesta situação o bandido foi punido com a morte, mas moralmente (para o alienado) isso não faz diferença (pois bandido é um caso perdido), e pelo contrário, é uma garantia de que aquele meliante não cometerá mais aquela ou qualquer outro tipo de contravenção que pode quebrar o bom convívio social. O policial é o heroi e um “pseudo-conforto” é estabelecido, afinal, “um a menos”. Esse pensamento crítico-alienado reconforta a maioria das pessoas, tendo sido estruturado pautando sua construção no senso comum e no instinto de sobrevivência pessoal (natural e social). “O bandido morreu” (“ninguém” gosta de bandidos – senso comum), se este está morto “Ele não pode me roubar, também” (não me afeta, estou seguro – instinto de sobrevivência natural e social). Assim, se constrói uma ideia de que todo bandido deve pagar com a vida e de que todo policial (ou civil) que o faz é heroi (fato isolado servindo para generalizar os outros). Essa talvez seja a vertente de pensamento crítico mais comum (mais senso comum) e que está estabelecida na maioria das pessoas. O que não é verdade se for pensada analisando o lado dos “bandidos” que ainda não foram pegos, por exemplo.
Agora, vamos manter o foco ainda na mesma ideia (policia x ladrão) e considerar possíveis vertentes de um pensamento que poderia abranger uma pouco mais da situação e não ponderá-la de uma forma isolada, como o senso comum faz. Esse pensamento poderia verter dentro de uma possível análise sobre a vida do “ladrão” e os fatores e influências socioculturais que o levaram a cometer àquele delito. Talvez, buscar entender o contexto em que ele cresceu e que estrutura familiar possuía, como este indivíduo é visto e classificado pela sociedade e qual sua margem de culpa (culpa social) por ser quem é. Pensar de quem realmente é a culpa por ele estar naquela situação, pois sim, como produtos finais, tanto ele como o policial são vítimas do sistema e fantoches da articulação do poder político. Ainda nesse sentido não se deve relegar a culpa aos pais de infrator, alegando falta de educação, se também não se conhece suas histórias, influências e contexto, pois de fato o problema está lá trás, e duas ou três gerações ainda não serão suficientes para explicitar tal fato.
No caso do ladrão (que também é movido pelo senso comum e alienado) seu problema tem base no Sistema e suas desigualdades que também faz com que ele pense as coisas do modo mais fácil (ao menos pra ele) e isso, você e eu, (que não somos “bandidos”) também, fazemos, a diferença entre nós e ele é que estamos em famílias, influências e contextos diferentes, de modo geral. No caso do policial (que também é movido pelo senso comum e alienado, generalizando), ele é uma ferramenta do Estado que é pago para receber ordens e punir os indivíduos que quebram o bom convívio social. [Pensemos que se para uma sociedade capitalista o certo é comprar, logo, roubar não se encaixa em seus padrões aceitáveis], se não se encaixa nos padrões quebra a harmonia, e alguém deve ficar responsável para que isso não aconteça, e o Estado incumbiu à polícia, isso.
Se tanto o ladrão quanto o policial, enquanto participantes ativos de nossa sociedade são vítimas do verdadeiro vilão que é o Sistema e sua estrutura desigual, por que um recebe pedras e o outro, palmas? Estamos apedrejando uma pessoa por não ter culpa do que se tornou e aplaudindo outra por ter que fazer o trabalho sujo de eliminá-la. Pois a responsabilidade não deveria ser da policia em escolher (moralmente) a punição de um bandido, e sim, do Estado em estruturar a sociedade de modo a não cria-los, como efeito colateral de um modo de produção egoísta. Pensar que um pode ter, mesmo que outro não tenha, é egoísmo.
Transcender a essa lógica (de pensar além do fato isolado) é pensar de uma forma mais ampla, e entender que quando um ladrão morre o problema do roubo não morre com ele. É como assoprar uma vela e esperar que todas as outras se apaguem de uma só vez. É degradante (é andar pra trás) pensar que quando um ladrão (uma pessoa) morre devemos ficar felizes, pois ali está um ser cuja história não conhecemos, e um incrível potencial desperdiçado para realizar outras coisas que seriam mais benéficas para o “nós” do que para o “ele”. É uma “pseudo-felicidade” que a própria alienação nos propicia, pois a sociedade em que vivemos nos criou com medo de perdermos coisas (que podemos substituir), mas não nos criou com medo de perdermos nossos semelhantes, principalmente se eles são os causadores do primeiro medo.
Nas palavras do internauta João Pedro (2014) discorrendo sobre um jovem negro espancado e mutilado por “pseudo-justiceiros”, por suspostamente estar cometendo pequenos furtos na região do Aterro do Flamengo: Se esse jovem não estava na Pedra do Sal de hoje ouvindo a alta poesia da música negra, tomando cerveja e conversando com seus amigos sobre seu trabalho de mestrado não é porque tenha um delírio malévolo de assaltar pessoas, fruto de uma natureza mais maligna ou menos humana que qualquer pessoa, mas porque não existe espaço objetivo pra dignidade e felicidade de todos no projeto capitalista, racista e violento de país que dirige o Brasil. Sem entender isso, não se entende nada e, facilmente, até mesmo sem perceber, se cai no colo dos fascistas.
Nossos pensamentos e decisões, nossas palavras e atitudes são frutos de uma vivência capitalista que nos ínsita a ter amor por objetos e apatia à humanos. Pensamos que um carro vale mais que uma vida, porque dentro de nossa sociedade baseada na troca, realmente trocamos vidas por carros. É esse pensamento mesquinho que nos enche a boca para dizer que quem leva nosso carro, praticamente levou nossa vida e em troca queremos outra. É essa alienação que nos controla, é o pensamento que diz que você só é bom porque trabalha. Que só percebe o roubo do ladrão armado, mas nem desconfia da armação do patrão que rouba um pouco da sua vida todos os dias, te dando um pouco em troca de muito. Quem rouba quem? Quem vive pelo que? Ainda acreditamos que pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Não quero com esse texto transmitir uma ideia de que defendo o banditismo, pelo contrário. Apenas quero tentar mostrar como o problema vai além do que se vê – de quem realmente é a culpa – e tentar ao menos criar uma faísca de ideia nas cabeças pensantes que leram essas linhas até aqui. Os fatores psicológicos que levam algumas pessoas a andarem fora lei são individuais e nem sempre escolhidos conscientemente. Lei é uma forma de controle que carrega uma ideia rasa de justiça, porém, sabemos para quem são feitas as leis e a justiça, e também sabemos quem às deve cumprir e obedecer. O verdadeiro crime está no alto escalação e imune a “ralé”, sai ileso alvejando ainda mais seu colarinho branco.

Busque o pensamento além do alcance, reconstrua o que você (supostamente) aprendeu na escola, deixe de lado o senso comum e mostre um poder de assimilação maior que o da maioria, só assim criaremos mentes realmente pensantes, que trarão ideias e soluções para construirmos uma sociedade melhor. Precisamos pensar de quem realmente é a culpa e parar de apoiar justiça com as próprias mãos e aplaudir trabalho sujo. Cada ser humano merece um número ilimitado de chances, apenas devemos criar as possibilidades para que ele só precise de uma. Ninguém é menos que ninguém, e os frutos de nossos pensamentos, comentários e críticas colheremos no futuro. E o Futuro é uma palavra de 6 letras e infinitas possibilidades. Isso deve mudar! Abra seus olhos, sua mente e seus livros, e de novo (pense): De quem realmente é a culpa? Lembre-se: não se justifica um crime cometendo outro. Nada substitui uma vida.

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