segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Levante-se! Não há mais tempo

             Em um dia qualquer, à sombra de uma figueira encontrava-me só, com um livro no qual a história eu já conhecia, mas o final parecia presente a cada página lida. Indagava em meu pensamento sobre o que acontecia ao redor daquele campo solitário, com uma figueira e cheio de Eu. Minhas ideias se confundiam com as linhas e as linhas com a grama, com os pássaros e os figos verdes. Indagava, divagava e pensava.
             Pensava em ser escritor, pois amava os livros, mas não sabia se o amor era causa suficiente para brotar talento. 
               – Mas pra que talento? (Pensei) Hoje em dia qualquer coisa vende, basta ter uma capa legal, com um fundo azul.
                 Pronto.
               Acabei de matar meu sonho, o mesmo sonho que uma pequena menina partilha, mas que visa à fama. Mais uma menina que sonha em ser modelo, mas que, como um livro qualquer, será vista mais pela capa do que pela história.
                 É... Tudo vende, é só por azul.
                 Azul é uma cor universal, quem não gosta de azul?
           – Mas azul é cor de menino, eu gosto de rosa! – esclarece a pequena menina. A pequena menina que não está no campo, nem à figueira e nem no livro. Mas que talvez seja ela a personificação do talento, o talento que cresce com o sonho e que se não tiver uma capa legal, não será mais do que só sonho.
              – Vá menina! Siga seu caminho cor de rosa. Besteira minha pensar que inspiração possa significar talento. Você me inspira, mas já lhe ensinaram tudo errado desde o inicio.
                  Sob a figueira, o livro que lia tinha capa dura, a figueira tinha uma sombra densa e a solidão do campo me explicava o resto. Via-me na capa, na sombra e no resto.
             As horas passavam tão depressa, sentia vontade de voltar no tempo e matar o inventor do relógio antes mesmo que ele o fizesse. Irônico. Voltar no tempo para impedir que o mesmo fosse controlado. Ou melhor, controlar o tempo para que fosse possível impedir que o mesmo fosse controlado. Irônico. O Tempo continua a ser o Tempo, mesmo sem relógio e sem controle. Não controlei o tempo que passou enquanto pensava isso, mas sei quanto ele vale e isso é assustador.
                    Que paranoia!
                Sozinho, à sombra da figueira e com um livro. Clássico maluco que fala com pequenas meninas em pensamento, e que se preocupa demais com o tempo, tempo que parece ter voado, por sinal.
                   Procurei pela pequena menina, na esperança de que ela não tivesse me obedecido, mas foi em vão. Em seu rastro encontrei um pequeno pedaço de papel, no qual havia uma escrita em letra de criança, com os seguintes dizeres: “Levante-se! Não há mais tempo. Saia da sombra e plante outra figueira, depois, escreva um livro e por fim procure por uma parceira fiel. Esse será seu legado e a herdeira dele sou eu.”

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