segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Lazer: conceitos, possibilidades e barreiras.

   Segundo Joffre Dumazedier, “o lazer é um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se, ou ainda, para desenvolver sua informação ou formação desinteressada, sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e sociais”. Mas será que, na prática, essa comunhão de significados pode ser aplicada de forma direta, a fim de que a otimização do chamado “tempo livre” seja, de forma efetiva, livre e produtiva?
    A resposta para essa pergunta deve ser considerada sob diferentes ópticas, pois fica claro que o lazer é pensado e estudado levando-se em consideração o coletivo, mas na prática possui um caráter mais individualizado. Essa dicotomia deixa claro que a construção do lazer, muitas vezes, não leva em consideração aspectos específicos em cada individuo, como por exemplo: a condição social.
    No vídeo documentário “Ócios do oficio” da ACIEPE (Atividade Curricular de Integração Ensino, Pesquisa e Extensão) Lazer em debate, ministrado pela Prof. Dra. Valquíria Padilha, na UfScar (2004), podemos ver claramente como o lazer está inserido na vida de todas as pessoas, porém, carrega os aspectos e peculiaridades de cada uma, levando-se em consideração sua classe social, nível cultural e poder aquisitivo, sendo cada um adaptado às suas realidades. Dentro destes aspectos é feita uma análise comportamental ligando diferentes pessoas (e suas realidades) às mesmas ferramentas destinadas ao lazer, propostas, ao menos em teoria, para todos.
     O lazer, sendo caracterizado como um tempo alheio ao tempo de trabalho e obrigações é estabelecido dentro de um espaço e em um determinado período de tempo, sendo este “tempo” considerado livre. Deste modo, Dumazedier, propõe que o lazer possui caráter: Libertário (livre escolha), Desinteressado (sem fins lucrativos), Hedonístico (busca pelo prazer momentâneo) e Pessoal (necessidades do indivíduo), na qual as relações desses caráteres implicam na classificação do que se faz ou se busca em seu tempo livre.
     O próprio entendimento sobre o que é Lazer está ligado aos níveis socioculturais de cada pessoa. No vídeo, por exemplo, algumas pessoas, ao serem indagas sobre o que gostariam de fazer no seu tempo livre, respondem que gostariam de trabalhar. Essa colocação poder ser vista com um processo fruto de sociedades pautadas no modo produção capitalistas, que criam uma alienação do trabalho e uma dependência pessoal deste. Como coloca o Professor de filosofia da UfSCar, Wolfgang Leo Maar, as pessoa se prendem ao trabalho a ponto de criar certo tipo de revolta ao estarem desempregadas, revoltam-se por não estarem lhe retirando sua força de trabalho. O mau entendimento do que é o verdadeiro tempo livre caracteriza, este, como um tempo de reposição das forças destinadas ao trabalho, e desvincula a ideia de tempo de não-trabalho.
   A capitalização do tempo destinou as pessoas a “comprarem” lazer, desenvolvendo atividades opostas ao tempo de trabalho, mas que necessitam serem pagas, o que, de modo geral, às ligam ao trabalho de forma indireta, já que é através deste que se consegue dinheiro. Os Shoppings são incríveis ferramentas elaboradas a fim de se praticar o lazer pago, que por sua vez criam uma falsa sensação de liberdade nas pessoas e não parecem acrescentar muito ao que diz respeito às capacidades humanas que podem ser desenvolvidas com o lazer, como ler um livro ou pintar um quadro. O bombardeamento midiático é o principal responsável por essa alienação do uso do tempo livre, que dentro das sociedades capitalistas baseia-se em um tempo de consumo.
     A alienação das relações e a constante prática do uso do tempo de consumo cria uma nítida segregação social, pois nessas condições só goza do verdadeiro lazer quem possui o que pode compra-lo. Nesse sentido outras áreas destinadas ao lazer como os Clubes, despenham papel fundamental no desenvolvimento de práticas em tempo livre, porém, mais uma vez a questão do acesso se destaca, visto que, é sabido que não é qualquer pessoa que mantém os atributos necessários para ser um sócio. Por outro lado, existem os espaços que, em teoria, são criados para todos como as praças e os parques públicos, mas que ainda, em muitos lugares, sofrem com a questão do acesso, já que são construídos em regiões centrais das cidades, dificultando o acesso aos moradores de periferias.
      É fato, que a real concepção sobre o que é lazer possui um caráter muito amplo na análise do tempo de não-trabalho, na qual diferentes atribuições se convergem e que, em muitos casos, também, se divergem. A cultura como formadora do ser humano (um ser social) parece influenciar diretamente na própria construção e concepção do que é tempo e como este é dividido: de modo geral, pensando na destinação do tempo ao funcionamento da sociedade e, de modo individual, pensando em uma apreciação do tempo pessoal, tempo livre, tempo desinteressado. Atenta-se ao fato de que a melhor forma de se aproveitar o tempo está pautada na busca pelo conhecimento das próprias habilidades, desenvolvimento das mesmas e mais ainda, um conhecimento de mundo, práticas e sociedade.

Esse texto foi elaborado com base na análise do Documentário "Ócios do ofício" (2004), para a disciplina Fundamentos Teórico do Lazer na Faculdade de Educação Física da Unicamp.

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