Já é dia na cidade, e assim como Ele, outros acordam, sem pensar demais almejando suas pretensões inconscientemente. Na mesma manhã de inverno de tempos passados, mas vivida pelo agora, atordoada e depressiva que na memória não se acha igual. – Será que o mesmo dia do ano passado fazia esse frio? Indagação interna, talvez nem se perguntasse se não estivesse, à contra gosto, fora das cobertas.
A noite passada não foi tão bem aproveitada, pois insistia em trocar horas de sono por uma extensão no papo que fluía pela internet. Ahh internet [...] o mal do século (ou seria o bem?), noites sem dormir, dias sem viver e uma satisfação virtual efêmera, distante e surreal. Conhecia pessoas novas, diferentes e interessantes todos os dias, entendia que ali era o lugar certo pra socializar sem compromisso, o modo mais despretensioso para ser pretensioso.
Sem pretensão, sem prévia e sem sono conheceu Ela, uma garota charmosa, de estilo alternativo e um sorriso singular. O que mais descobrira era o que a própria rede oferecia: mora perto, solteira, fotogênica e alguns amigos em comum para estreitar a relação. E após uma inciativa dela iniciou o papo que tirara o sono da noite anterior. Uma conversa “despretensiosa”, na qual havia uma química impressionante, pois ambos se classificavam como introvertidos, mas não ali, não agora. O papo que vinha sempre trazia outro e numa perambulação de assuntos diversos a hora se perdia e a noite se adentrava.
Tudo que buscava na rede parecia estar ali, em uma pequena janelinha no canto inferior, que cativava e roubava sua atenção. Nada mais era levado em consideração, os afazeres do dia seguinte não importavam tanto, e já pensava em maneiras de compensar o sono durante o dia, pois não queria perder nenhum minuto com Ela. As horas pareciam minutos e o interesse só empurrava todo o resto para depois.
De onde surgiu? De onde surgiu aquele sorriso? Quais motivos eram dignos daquela honra?
Fim do papo.
Depois de uma despedida apertada, como em um piscar de olhos toca o despertador. O sono consome, é como uma angústia. Há tempos prometera que tornaria ao costume de dormir cedo, mas já até esquecera essa e outras promessas. Bravo, atordoado e aos resmungos inicia seu ritual matinal, e junto com as especulações sobre o frio de manhãs passadas lembra-se do real motivo de sua noite mal dormida. Um motivo de cabelos loiros e sorriso (sempre o sorriso) estonteante. É como se o pensamento, ao entrar naquele semblante, divagasse e nada mais ao redor fosse importante, nem mesmo o tempo, que mais que a importância, perdia-se a noção.
Agora, atrasado para sair, começa perceber a realidade de que o dia será longo e cansativo, mas parece não ligar e se consola sabendo que a noite perderá o sono outra vez se Ela estiver online.
E ela?
Ela, no desespero do atraso Dele, dorme. Dorme como se não houvesse amanha, dorme como se já esperasse por Ele na próxima noite em claro, dorme sem angústia e sem atraso. Não indaga sobre noites passadas de inverno, mas espera de alguma forma que as noites de inverno futuras sejam com Ele. Dorme sem sonhar para não correr o risco de esquecer o que sonhou na manhã seguinte.
[...]
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